Arquivos Mensais:janeiro 2013

O universo da moda e o consumidor maduro

Você é brasileiro(a) e tem mais de 50 anos. Quais são suas possibilidades de marcas de roupa? Qual é o seu espaço no universo da Moda?

A Moda não é um fenômeno isolado da sociedade. Ela é parte integrante do sistema cultural em que estamos inseridos e é resultante das tendências de comportamento das pessoas. Mas saber que tipo de roupa, qual corte, cor, estilo serão desejados pelas pessoas no futuro não é tarefa fácil e, por isto, existe uma indústria com profissionais especializados em identificar as tendências de consumo a partir da observação do comportamento global.

Estas tendências se iniciam na própria Cultura, do qual os grandes profissionais criativos são tanto resultado quanto agentes importantes de transformação. O antropólogo Grant McCracken tem textos adoráveis sobre isso, para quem quiser conhecer mais.

Enquanto produto da Cultura os profissionais criativos são reféns (mas não completamente) dos valores vigentes. E a valorização da beleza e da juventude é um valor vigente na sociedade contemporânea. Ser (ou parecer) jovem atribui “capital simbólico” (como diria Bourdieu) a quem é (ou parece). E há quase uma ditadura hoje em dia: todos querem ser ou parecer ser jovens. Será?

Claro que não. Existem pessoas que valorizam e até curtem uma imagem mais madura mas são a minoria. E como toda minoria, tem dificuldade em encontrar uma moda que seja o seu número. Literalmente, afinal, uma das peculiaridades da moda é o corte e a regra geral é focar os modelos em silhuetas esguias, pouco comum em pessoas com mais de 50 anos.

Já escutei muito de consumidoras mais velhas que, quando encontram uma loja que sempre têm algo que lhe cai bem, elas se tornam fieis. Alguém imagina isso sendo dito por um jovem de 25 anos? Tudo é feito para ele…

Marcas Brasileiras de moda como a Richards, a Cori e a Shoulder fazem moda para corpos e cabeças com mais de 40 anos. Mas não se posicionam clara e diretamente para esse público. É como se pessoas mais velhas fossem um vírus capaz de envelhecer a marca. Isso já não acontece com grandes marcas internacionais como Louis Vuitton e Prada que encontraram formas bem interessantes de retratar este público em diversas campanhas, apresentando  pessoas mais maduras em seus anúncios. Até as celebridades que elas escolhem refletem a idade desta parte de seu público. É uma forma de ser valorizado por estes consumidores que, em geral, têm uma carteira recheada para pagar os preços mais que premium das peças destas marcas.

Resumo da ópera: O trinômio sistema cultural, indústria e profissionais criativos se volta para os mais jovens. Exclui os mais velhos de sua marca, produto e só não exclui da loja porque seriam presos.

Adoraríamos ver marcas mais cotidianas do que Louis Vuitton e Prada tratando os consumidores com mais de 50 anos de forma natural, com atitude de pessoas que querem, da mesma forma que o jovem, construir quem são e se expressar por meio do que vestem.

Vivienne Westwood disse recentemente que as pessoas que se vestem de forma mais interessante têm hoje mais de 70 anos. Ela disse isso justamente porque essas pessoas fogem do fast fashion, que nem é direcionado a elas. Ou seja, no cruzamento do uso de criatividade e autenticidade com a inadequação do mercado a essas pessoas, surgem corpos maduros que transpiram personalidade nas ruas.

Fabio Sandes                                                  Benjamin Rosenthal

Festa do Oscar: Proibida a entrada de maiores de 60?

O personagem central do faroeste Bravura Indômita é um pistoleiro bêbado, o xerife Rooster Cogburn, que é contratado pela menina Mattie Ross, de apenas 14 anos, para que prenda o assassino de seu pai. A versão original desse clássico do cinema americano foi filmada em 1969 e teve John Wayne no papel principal.

Em 7 de abril de 1970, quando Wayne subiu ao palco para receber o Oscar de Melhor Ator, além da estatueta ele faria história por outro fato. Então com 62 anos, ele seria o primeiro ator com mais de 60 anos a receber o prêmio máximo da academia. E isso ocorreria apenas na 42ª edição do prêmio, celebrado desde 1929.

Em 2012, passadas outras 43 edições do Oscar, totalizando 85 premiações, apenas outros 4 atores repetiriam o feito do valentão Wayne:  Henry Fonda, com 76 anos (Num Lago Dourado, 1981), Paul Newman, também com 62 anos (A Cor do Dinheiro, 1987), Jack Nicholson com 60 anos (Melhor Impossível, 1998) e Jeff Bridges, com 60 anos (Coração Louco, 2010). Uma curiosidade é que o mesmo Bridges, o último sessentão a receber o Oscar, também em 2010 deu vida novamente ao xerife beberrão Rooster Cogburn, na refilmagem dos irmãos Cohen do clássico Bravura Indômita.

Coincidências a parte, a escassez de vencedores mais velhos é consequência matemática da sua participação nos filmes em geral, seja em Hollywood, seja por aqui. Mais do que uma regra de três, tal fato ilustra uma realidade cruel: são raros os papéis, sobretudo os principais, que retratam personagens de idade mais avançada. O cinema imita a vida, não é o que diz um desses ditados?

O ostracismo a que são relegados grandes atores e atrizes depois de atingirem certa idade infelizmente é mais do que uma dura regra do cinema. Trata-se antes de uma extensão do mesmo fenômeno social que abrange praticamente todas as áreas de nossa sociedade. Sob esse prisma, nos comportamos como os elefantes, que quando atingem a velhice se isolam do grupo, onde acabam morrendo sozinhos.

Roni Ribeiro

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