Amor (o filme) e o desrespeito com o idoso

Postado em 12 de fev de 2013

A maior contribuição de Amor (o filme) é escancarar de forma realista a experiência da fase mais tardia (e difícil) do envelhecimento por meio do protagonismo de Georges e Anne, um casal de idosos que aparenta ter 80 e muitos anos, que passa pelo momento duríssimo em que um dos dois rapidamente perde parte das funções motoras e começa a fisicamente se degradar.

Não vou fazer muitos comentários sobre o roteiro como um todo pois não é meu objetivo aqui. Vou me ater a um único aspecto que me causou emoções fortes no filme e que, desde que começamos a planejar a GAGARIN, tem sido difícil de lidar ou de aceitar: o fato de que existe um profundo desrespeito para com o idoso amalgamado na nossa cultura.

A cena que me incomodou é simples: uma enfermeira mal preparada penteia os cabelos de Anne. Ela o faz de forma mecânica, lhe diz palavras supostamente agradáveis como “olha que linda que ficou…” e força Anne a olhar no espelho o resultado de seu trabalho. Anne se recusa bruscamente pois não quer se ver sendo (ao seu olhar) uma sombra do que já foi. A enfermeira não entende porque acaba sendo demitida por Georges. Sequer percebe o desrespeito em seu gesto mecânico de tratar um idoso com dificuldades físicas sérias como se ele fosse um tolo incapaz de perceber seu estado e facilmente ludibriado por palavras vazias.

O desrespeito com o idoso é visto todos os dias, por exemplo na forma de violência física dentro de casa ou de negligência no trânsito, onde há 3 vezes mais mortes por atropelamento de pessoas com mais de 60 anos do que ocorre com jovens entre 20 e 39 anos (Reichenheim, 2011). Minayo (2005) produziu um documento para o Observatório Nacional do Idoso no qual esmiúça o estado da violência contra o idoso no Brasil. De lá eu tiro uma frase de Norbert Elias que define bem uma das origens dessa violência vista no filme: “A fragilidade dos velhos é muitas vezes suficiente para separar os que envelhecem dos vivos. Sua decadência os isola… a separação em relação aos seres humanos em geral, tudo aquilo que lhes dava sentido e segurança.”

Ainda bem que Anne tinha George, que com sua personalidade forte diz à enfermeira: “espero que alguém um dia lhe trate com o mesmo desrespeito que você tratou Anne e que, como ela, você não possa se defender”. Espero que não. Espero que quando a jovem de 20 e poucos anos envelhecer, já na segunda metade desse século, nossa sociedade já tenha se livrado desse desrespeito nauseante.

Benjamin Rosenthal