Envelhecer deveria ser como Woody Allen tocando clarineta

Postado em 27 de jul de 2013

Envelhecer deveria ser como Woody Allen tocando clarineta. Pensei nisso quando assisti certa vez  a um show de sua banda de traditional jazz. Explico o paralelo nesse post.

Woody Allen toca mal, deixo claro desde já. Ninguém foi ao seu show para ouvi-lo, mas obviamente para vê-lo ou vê-lo em uma situação inusitada. É sobre essa escolha inusitada de se tornar um músico de jazz, que se aventura em se expor ao público, que me debruço.

Não tenho acesso às motivações de Woody Allen. Se tocar fosse sua motivação principal ele poderia fazer isso em ambiente privado, em ensaios ou até para platéias mais reduzidas. Apenas no show que fui deveria ter umas 1000 pessoas. Assim, por mais que ele goste de tocar (e claramente gosta), essa não é sua motivação principal. Ser um músico de jazz é sua motivação – essa foi a impressão que tive. Quando falo em “ser um músico”, eu me refiro a toda uma simbologia, ao elemento físico e gestual que implica um músico, ao desejo identitário tardio de ser membro de um grupo de jazz, ao desejo de pertencer ao coletivo, à rotina que implica ser membro de um grupo de jazz.

Woody faz isso com todas as forças, claramente quer se destacar no palco. Ele o faz pela presença icônica de um dos grandes do cinema mas também pelo uso de um forte elemento cênico – seu silêncio concentrado antes de tocar. Como é normal em grupos de jazz, os sopros não atuam o tempo todo na música, eles entram em determinados momentos, como base harmônica ou como solistas. Woody fica petrificadamente concentrado enquanto espera seu momento. Para quem observa ele transmite uma sensação de que o que ele fará a seguir é pensado, esforçado e profundamente ensaiado. Ele não está ali para fazer feio e, mesmo que o faça, ele o fará tentando ao máximo ser bem sucedido na empreitada.

Porque isso importa ao tema de envelhecimento, você já deve ter se perguntado. Woody Allen tem uma carreira bem sucedida no cinema, mas decidiu se engajar em uma segunda carreira no meio da fase denominada terceira idade. Sua mãe queria que ele fosse farmacêutico. Ele foi comediante e cineasta. Faltava-lhe a música, o jazz, e ele decidiu fazer isso antes que fosse tarde demais.

Certamente tocar faz bem a Woody Allen, ele tem nisso um propósito, uma rotina, um ambiente social, uma prática que deseja para si, reconhecimento e até dinheiro. Woody Allen poderia parar de fazer cinema que o jazz tomaria sua vida. A busca por projetos novos ou pela continuação de projetos em andamento é um dos elementos fundamentais de um envelhecimento saudável. O planejamento de atividades e papéis para quando se envelhecer é outra tarefa fundamental e que pode ser iniciada tanto na fase pré-envelhecimento quanto no momento em que a idade bateu na porta e a vida foi transformada. A literatura nos mostra que planejar bem a velhice é algo que poucos fazem (Street e Desai, 2011). Alguns pensam nos aspectos econômicos e fisiológicos apenas e muitos se esquecem dos aspectos relacionados aos papéis que se deseja assumir.

Os novos projetos reforçam quem se é ou quem se torna a pessoa que envelhece e quanto mais ela já não tiver os antigos papéis que representava na sociedade, tanto mais ter novos projetos será importante. A sociedade atual se estruturou de uma forma que retira papéis dos que envelhecem mas não os repõe repaginados. Certo ou errado, cabe ao indivíduo, então, atuar para se proteger e planejar sua vida. Niemeyer não viveu tanto por ter uma saúde privilegiada apenas. Foi seu trabalho, foi continuar a produzir e a ser Niemeyer que o manteve vivo por tanto tempo. Ninguém foi lá e disse a Niemeyer que ele não podia mais projetar e que um garoto de 25 anos tomaria seu lugar. Mas com muita gente isso acontece. É preciso buscar novos papéis.

Não quero aqui bancar o ingênuo e deixar de lado as possibilidades que ser rico, culto e bem relacionado traz a Woody Allen, características indisponíveis à grande maioria das pessoas que envelhecem. Mas quero usar seu exemplo como incentivo a todos nós, menos privilegiados.

E quanto à clarineta que cada um vai tocar, que importa se não a tocarmos com a mesma qualidade que fazíamos nos nossos papéis anteriores, desenvolvidos ao longo de décadas? Fazer bem não tem mais valor do que apenas fazer. Afinal, se há tanto para ser aperfeiçoado quando se vive, morrer pra que?

Benjamin Rosenthal