Gay and Gray

Postado em 02 de jun de 2013

Da forma como eu vejo, as paradas GLBTS têm um sentido fundamental de libertação. Assim elas deveriam ser celebradas por todos, afinal quem não quer ser livre para fazer o que bem entende, sem ser alvo dos olhares reprovadores de segmentos da sociedade? Heterossexuais inclusive ou o preconceito não acaba atingindo a todos?

Assim, resolvi me debruçar sobre o tema da homossexualidade no envelhecimento. Descobri no excelente The Cambridge Handbook of Age and Ageing artigos escritos por pesquisadores especializados no tema.

Uma das perspectivas que mais me chamou a atenção foi a de fase no ciclo de vida. Segundo Allen (2006), gays que hoje têm 60, 70 ou 80 anos se tornaram adolescentes em uma época em que sua homossexualidade era considerada uma aberração, individual e social. Eles não contavam com o ambiente que temos hoje, muito mais favorável e tolerante aos gays e lésbicas, ainda que longe de perfeito. Também enfrentaram um ambiente profissional intolerante à sua opção sexual, o que muitas vezes impedia que assumissem sua identidade. Se para os jovens de hoje é difícil, imagine no Brasil dos anos 60?

Um segundo ponto que me chamou a atenção foi o preconceito que os próprios gays e lésbicas mais velhos sofrem dentro da própria comunidade gay (uso o termo comunidade no sentido de grupo que tem interesses, laços e códigos em comum). Parte desse preconceito é baseado no desejo pela beleza e juventude que existe na comunidade gay, assim como em toda a sociedade.

Os pesquisadores israelenses Meri-Esh e Doron (2009) constataram que envelhecer sendo gay em Israel é o mesmo que carregar 3 cruzes. A cruz de ser velho, a cruz de ser gay e a cruz de ser gay em uma comunidade gay que também hiper valoriza a juventude. Quem envelhece e deixa de apresentar um corpo atlético, com todos os sinais de juventude e da virilidade, sofre preconceito e é esquecido e tornado invisível. Aliás, segundo Bergling (2004) tanto os mais novos quanto os mais velhos têm dificuldades na comunidade gay.

Por fim, um terceiro aspecto me chamou a atenção. Segundo Allen (2006), idosos gays e idosas lésbicas acabam tendo menos suporte estrutural da família na velhice. Seus laços familiares nem sempre se mantém devido ao preconceito. Há também a ausência de filhos e netos, que poderiam cuidar dos idosos, como se faz com os heterossexuais. Por outro lado, segundo Allen, gays e lésbicas desde cedo aprendem a se virar sozinhos e constroem estratégias de criação e manutenção de laços sociais mais amplos e fortes. O estereótipo de que possuem vidas sociais mais agitadas encontra embasamento científico, se é que isso é necessário.

O termo “old fag” (ou sua tradução para o português) ganhou novo sentido para você? Então abandone-o. Use algo mais inteligente, carinhoso e próximo da realidade. “Você” é bastante adequado…

Benjamin Rosenthal