Aposentando o pijama

Postado em 10 de jul de 2012

Sexta-feira a noite, jantar após a cerimônia de formatura da turma de Engenharia Elétrica da Poli. Toca o celular e José Luiz atende a ligação que parecia ser urgente. Ele é chamado às pressas pela Eletropaulo para assumir um comitê de crise causado pela pane numa das linhas do metrô de São Paulo. Mas bem naquela hora, no meio de uma cerimônia de formatura? Em meio a tantos profissionais gabaritados que a empresa deveria ter, porque iria recorrer logo a ele, ali naquela situação?

Pois saiba que faz muito mais sentido do que aparenta. O José Luiz que atendeu o celular na verdade é o pai do meu amigo Eduardo, e embora já esteja formalmente aposentado e tenha 63 anos de idade, ele é o profissional hoje mais cobiçado daquela mesa de promissores formandos de uma das melhores universidades brasileiras. Sim, as perspectivas para Eduardo podem ser muito boas, mas a realidade de José Luiz, assim como de muitos profissionais experientes como ele, nunca viveu momento tão positivo.

O exemplo de José Luiz é igual a de muito outros “aposentados” que estamos vendo por aí. Valorizados pela escassez de técnicos capacitados, eles aposentaram o pijama e foram recontratados por suas antigas empresas. Esse exército de reserva tem constituído um grupo precioso, já que unem ao conhecimento técnico, a experiência acumulada ao longo dos anos, a familiaridade com a empresa e uma outra característica que é menos comum nos jovens: estão menos propensos a mudarem de emprego, podendo ser considerados mais estáveis.

Mas esse quadro nem sempre foi assim. Há menos de dez anos o cenário mais comum era de valorização dos mais jovens em detrimento dos profissionais de cabelos brancos. Em algumas áreas, como o Marketing, a rigor continua assim. Com isso, mais do que critérios como competência e resultados atingidos, muitas vezes a idade acabava sendo fator determinante das decisões de promoção e corte de cabeças. Ledo engano esse modismo que felizmente está sendo superado. Ganhamos todos em não abrir mão dessa experiência. Aliás, bem sucedidas serão as empresas que conseguirem uma boa alquimia entre a juventude de Eduardo e a experiência de José Luiz.

Roni Ribeiro