Sucesso não tem idade

Postado em 06 de jul de 2013

“Bate outra vez, com esperanças o meu coração, pois já vai terminando o verão…”. Esses são os versos que abrem uma das músicas mais belas da música brasileira, As rosas não falam, do célebre compositor Cartola (1908-1980). Quando compôs essa música, em 1974, ele estava com 66 anos e havia acabado de gravar seu primeiro disco. Essa canção na verdade só ganharia o mundo na voz de Beth Carvallho, em 1976.

Apesar de desde moleque Cartola ter se envolvido com o universo do samba, passou grande parte da vida no anonimato e apenas aos 66 anos acabou despontando para o sucesso. Imagine se, como muitos que se acham “velhos” aos 60 anos, Cartola tivesse ficado na sua. Não conheceríamos canções como “As rosas…” e “O mundo é um moinho”. E já que falei dessa, olha seu abre alas: “Ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida, já anuncias a hora da partida…”.

Um ditado conhecido diz que uma vez escritas as palavras são de quem as lê, não mais de quem as escreveu. Muito sábio, pois em cada um elas podem produzir significados novos, uma vez combinados aos sentimentos particulares. Faço uso dessa prerrogativa para interpretar que nas 2 canções, o tema do tempo é muito marcante. É a esperança que renasce após um verão que termina, quando talvez fosse óbvio o contrário. Assim como alguém que parte antes do que deveria.

Cartola tal qual o conhecemos nasceu aos 66 anos. E ele está longe de ser o único nessa situação. Para falar de alguns, a lista de artistas tardios inclui, por exemplo, a inglesa Mary Delany (1700-1788), que fez sucesso aos 71 anos. Apesar de ter uma vida dedicada a artes, só ficou conhecida quando após a morte do marido encontrou na representação de flores uma maneira de lidar com a dor da perda. Suas obras impressionaram até o rei George III, que enviou a ela flores raras do jardim real para que as representasse. A perda foi um recomeço, não um fim.

Carmen Herrera (nascida em 1915) é um caso ainda mais impressionante. Ela despontou aos 89 anos, quando em 2004 vendeu seu primeiro quadro, depois de pintar de maneira privada por 6 décadas. Hoje é possível ver obras suas no MoMA de NY e no Tate Modern de Londres, entre outros famosos museus. História similar já vivida antes por Grandma Moses (1860-1961) ficou conhecida aos 79 anos, quando o mesmo MoMA adquiriu 3 de seus quadros. Quando completou 100 anos Grandma foi capa da revista LIFE.

Mas se voltarmos o olhar para o mundo empresarial, também há vários exemplos que atingiram o topo depois do 60: Lázaro Brandão, Abílio Diniz, Elie Horn. O primeiro esteve a frente do Bradesco entre os 55 e 73 anos (1981-1999) e fez o banco multiplicar de tamanho. Em 2009, Abílio Diniz aos 73 anos consolidou a maior rede de varejo do país. Elie Horn está a frente da maior construtora do brasileira (imobiliário), a Cyrela, que abriu capital em 2005, quando Elie tinha 61 anos. Um ano depois ele entraria na lista de bilionários da Forbes.

Enfim, por essas e muitas outras fica claro que a idade não é necessariamente um limitante para nossas realizações, sejam elas ditas grandiosas ou não.

Roni Ribeiro